Cientistas da UFSC criam produto natural e inovador para tratamento da mastite bovina

26/05/2021 14:33

Pesquisadoras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) desenvolveram um gel antimicrobiano à base de ingredientes naturais para o tratamento da mastite bovina, uma das principais doenças que atinge vacas leiteiras. O produto, que teve seu pedido de patente depositado no início de maio junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) por meio da Secretaria de Inovação da UFSC (Sinova), pode atender a uma demanda antiga de produtores de sistemas orgânicos e agroecológicos, bem como colaborar para a diminuição do uso de antibióticos nos sistemas de criação convencionais. O trabalho foi executado no Laboratório de Bioquímica e Produtos Naturais (Labinat) e fez parte da pesquisa de doutorado de Gabriela Tasso Pinheiro Machado, realizada no Programa de Pós-Graduação em Agroecossistemas sob orientação da professora Shirley Kuhnen e co-orientação de Luciana Aparecida Honorato e Maria Beatriz Veleirinho.

A mastite bovina é caracterizada pela inflamação do tecido da glândula mamária e pode ser causada por diferentes espécies de bactérias. A enfermidade é dividida em duas categorias: a mastite clínica, na qual há sintomas visíveis e mudanças físicas na aparência do leite e da mama; e a mastite subclínica, de mais difícil diagnóstico, uma vez que não apresenta manifestações aparentes na vaca ou no leite. Em ambos os casos, contudo, há redução da quantidade e da qualidade do leite. Segundo Gabriela, a doença está presente em praticamente todos os rebanhos leiteiros e pode gerar grandes prejuízos para os produtores. Seu tratamento, em geral, envolve a utilização de antibióticos, mas, além do risco de as bactérias desenvolverem resistência aos medicamentos tradicionais, o uso de antibióticos é limitado na produção orgânica e agroecológica de leite – o que torna bastante complicado o tratamento e o controle da mastite nesse tipo de sistema.

O gel antimicrobiano criado na UFSC foi pensado justamente para atender às necessidades desse grupo de produtores. Ele é totalmente elaborado com matérias primas naturais: k-carragenana, uma substância extraída de algas marinhas vermelhas, mucilagem de linhaça e extrato de macela. Nenhum dos ingredientes foi escolhido por acaso. Os dois primeiros ajudam a dar a consistência adequada – a viscosidade do gel permite que o material permaneça por mais tempo no interior da glândula mamária e que as partículas sejam liberadas gradativamente ao longo do tempo. Há registros, aliás, de que a linhaça já vem sendo utilizada por produtores de leite orgânico para prevenir a mastite devido ao seu potencial antimicrobiano. O extrato de macela, por sua vez, havia sido alvo de estudos prévios do Labinat, que constataram que a planta possui atividade antimicrobiana e, mesmo em doses altas, não é tóxica para humanos ou animais.

Um processo de nanoemulsão da macela, que também está sendo patenteado, reduziu as partículas à escala nanométrica – dezenas de milhares de vezes menor que um fio de cabelo. Isso aumenta o potencial antimicrobiano da planta, uma vez que elementos menores têm mais alcance e penetração no interior do corpo, e colabora para a estabilidade do gel. “A maioria dos produtos naturais está exposta à degradação quando em contato com o oxigênio ou com temperaturas altas. Então, o desenvolvimento da nanoemulsão de macela foi proposto inicialmente para contornar essas limitações, já que a nanoemulsão forma partículas reduzidas e protege os ativos. Isso garante maior tempo de prateleira e maior estabilidade”, explica Gabriela.

Uma série de experimentos em laboratório, com células de glândulas mamárias bovinas coletadas em abatedouros, confirmaram que o gel é capaz de penetrar no tecido mamário e matar bactérias causadoras da mastite sem fazer mal para as células da vaca. O Labinat ainda não tem previsão de quando começarão os testes com animais, mas a proposta é que o produto possa ser utilizado durante a lactação e no chamado período seco – quando a vaca não está produzindo leite. “É tanto preventivo quanto para o tratamento”, comenta a pesquisadora.

“A gente conseguiu desenvolver com sucesso um novo produto, à base de produtos naturais, que mostrou atividade antimicrobiana elevada e aplicação segura, por não apresentar nenhum tipo de toxicidade”, celebra Gabriela. “Eu gostaria muito que esse produto um dia chegasse na prateleira, porque de fato é uma necessidade que o mercado de produtos orgânicos e agroecológicos de leite tem. É uma lacuna, porque não existe hoje um produto com eficácia antimicrobiana que seja comercializado e que tenha origem natural, que tenha seu uso permitido. Isso não existe hoje, no Brasil pelo menos. Então, seria de fato uma necessidade que esse produto um dia chegasse na prateleira e, de preferência, o quanto antes”, complementa.

A pesquisa faz parte do projeto Produtos naturais: alternativa no controle da mastite bovina, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e coordenado pelo professor do Departamento de Zootecnia da UFSC Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho.

 

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