Gigante na Maricultura: produção da macroalga traz benefícios ao meio ambiente e ao produtor

22/01/2021 17:32

Mesmo sendo 2020 um ano em que a pandemia de Covid-19 paralisou muitas atividades econômicas, em se tratando da produção da macroalga Kappaphycus alvarezii houve dois avanços importantes. Em meio a tantas notícias nada animadoras para alguns setores estratégicos em Santa Catarina, este pode comemorar a liberação e a regularização, por parte dos órgãos ambientais e de fiscalização, do cultivo comercial dessa espécie no litoral catarinense.

Os dois marcos ocorreram, respectivamente, nos meses de fevereiro e de dezembro, e são os fundamentos legais para que a macroalga desponte como uma nova alternativa de renda aos maricultores da região, ao lado da reconhecida produção de ostras, mexilhões e vieiras. A emergência sanitária não interrompeu o trabalho de pesquisa realizada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) há mais de dez anos e é essa história, cujo desfecho já foi antecipado, que será contada a seguir.

A pesquisa

A macroalga foi introduzida no Brasil em 1994, pelo professor da Universidade de São Paulo (USP) Edison José de Paula, que trouxe um clone da espécie proveniente do Japão. O desafio da sua pesquisa era suprir a ausência de uma espécie nativa economicamente viável para a Maricultura. Os primeiros experimentos foram realizados no município de Ubatuba, no litoral paulista, e, concomitantemente, buscava-se a legalização desse tipo de cultivo no país.

O interesse por esse tipo de alga é mundial e deve-se principalmente à Carragenana, seu principal derivado largamente utilizado pelas indústrias alimentícia, farmacêutica, química e cosmética. Dada a inúmera aplicabilidade desse gel em diversos setores econômicos, ao menos 25 países cultivam a K. alvarezii. Somente o Brasil importa por ano mais de 2 mil toneladas do espessante, o que representa uma despesa em torno de 15 milhões de dólares.

Professora e pesquisadora Leila Hayashi,

do Departamento de Aquicultura da UFSC.

Foto: Karina Ferreira

Apesar de Rio de Janeiro e São Paulo já produzirem a espécie desde 2008, os dois estados não entraram efetivamente em uma escala comercial. Para a professora do Departamento de Aquicultura da UFSC, a bióloga Leila Hayashi, “o Brasil tem todas as possibilidades para ingressar de fato neste mercado. Os maiores fornecedores, que são Filipinas (país de origem da K. alvarezii), Indonésia e Tanzânia, não estão conseguindo atender à demanda internacional, pois enfrentam uma série de problemas decorrentes das mudanças climáticas”.

Hayashi envolveu-se com o estudo da macroalga em 1998, durante seu mestrado em Botânica na USP, no qual recebeu orientação do próprio idealizador. A participação mais concreta ocorreu em 2003, no início do seu doutorado. À época, seu orientador Eurico Cabral de Oliveira Filho lhe propôs dar continuidade à pesquisa, em virtude do falecimento do professor Edison em 2001. Os motivos que a levaram aceitar deixa explícitos: “sempre quis fazer parte de um trabalho em que a universidade pudesse realmente fazer a diferença na sociedade; e por ser uma obra da qual já era completamente apaixonada”.

Outro momento decisivo para a pesquisadora aconteceu em 2008, em que a UFSC e a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) a convidaram para desenvolver o cultivo da macroalga no estado. Para sinalizar com uma resposta positiva levou em consideração a reconhecida tradição da Maricultura no litoral Sul do país e, mesmo diante de diferenças regionais, a possibilidade de trazer e adaptar as experiências do Sudeste. “A ideia era expandir o modelo para o resto do Brasil e poder tornar o nosso país independente de importações”, argumenta Leila.

O recomeço

O primeiro cultivo experimental da macroalga em Santa Catarina  foi instalado na praia de Sambaqui, em Florianópolis onde a Universidade possui uma fazenda marinha vinculada ao Laboratório de Moluscos Marinhos (LMM). Nesta localidade uma estrutura foi implantada para a produção de ostras e mexilhões, “a partir de pedaços de talo, amarrados em cabos mantidos em sistemas flutuantes, como balsas ou long-lines. A tecnologia empregada visava um cultivo sustentável da espécie e a seleção de linhagens mais produtivas, para produção de Carragenana de qualidade”, explica a professora. Os dados preliminares foram positivos e mostraram que a espécie se adaptou muito bem às condições do litoral de Santa Catarina.

Os estudos da UFSC, em parceria com a Epagri e a Secretaria de Estado da Agricultura, da Pesca e do Desenvolvimento Rural, sempre foram acompanhados pelos órgãos ambientais, por se tratar de uma espécie não nativa do Brasil. A cada período de três anos era necessário renovar a licença experimental de cultivo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Mesmo sendo produzida no Brasil desde 1994 e, desde então, não ter provocado nenhum impacto ambiental, o monitoramento do ciclo produtivo deve ser constante, influenciado novamente pelas alterações climáticas.

No fim da primeira licença, em 2011, a renovação somente foi possível em 2017, devido à exigência do Ibama em expandir o cultivo para mais três pontos do litoral catarinense – nos municípios de Penha, Governador Celso Ramos e no bairro Ribeirão da Ilha, em Florianópolis. Neste intervalo de seis anos sem o licenciamento, foi preciso retirar as estruturas do mar e dar continuidade à pesquisa na Seção de Macroalgas do Laboratório de Camarões Marinhos (LCM) da UFSC.

Os alunos da UFSC, nessa etapa laboratorial, ajudaram a estabelecer as condições necessárias para o cultivo nos tanques. Havia a preocupação de manter a alga saudável em um ambiente completamente diferente do mar, com controle de temperatura da água e regime de nutrientes. Para Leila, “esta fase foi bastante positiva, pois alavancou dissertações de mestrado e teses de doutorado e, por esses estudos, o Brasil se tornou referência nos experimentos para introdução da macroalga em outros países”.

Em todo esse processo, que já ultrapassa 10 anos, houve o envolvimento de profissionais e estudantes ligados a instituições de pesquisa, integrantes de órgãos governamentais das três esferas e, fundamentalmente, maricultores. Além da pesquisa, Hayashi divide sua rotina profissional entre o departamento e o Laboratório, ambos do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da UFSC, onde ministra aulas na graduação e na pós-graduação, com enfoque em macroalgas marinhas e na geração de novas tecnologias de cultivo.

A regulamentação

Anúncio na Alesc da liberação do cultivo comercial da macroalga, em fevereiro de 2020.

Foto: Eduardo G. de Oliveira/Agência AL

Como já citado na abertura desta matéria, duas conquistas importantes desse trabalho ocorreram em 2020. Em fevereiro, na tribuna da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (Alesc), a pesquisadora da UFSC anunciou a liberação do cultivo comercial da K. alvarezzi no litoral catarinense, constante na Instrução Normativa nº 1, de 21 de janeiro de 2020, emitida pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). E em dezembro, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) divulgou Nota Técnica nº 102/2020, permitindo que os maricultores catarinenses solicitem por meio eletrônico autorização para uso dos parques aquícolas, onde serão instalados os cultivos.

A Secretaria de Aquicultura e Pesca do Governo Federal se encarregará de comunicar ao Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) quais são os cessionários interessados e as respectivas áreas de cultivo. E serão esses produtores cadastrados os responsáveis pelo monitoramento ambiental, devendo repassar as informações anualmente à SAP. Em contrapartida, o órgão realizará vistorias regulares in loco para averiguar os dados sobre as condições dos cultivos informados nos relatórios.

Os benefícios

O cultivo da macroalga apresenta aspectos positivos tanto para o meio ambiente como para produtor. Além de incrementar a economia no estado – considerado o maior fabricante nacional de moluscos bivalves (Ostra, Mexilhão e Vieira) -, suas características biológicas melhoram a qualidade da água. A bióloga elucida que “a K. alvarezii caracteriza-se por captar os nutrientes disponíveis na água, atenuando ou mesmo cessando a proliferação de algas tóxicas que causam a Maré Vermelha”, um fenômeno natural que inviabiliza a comercialização de moluscos.

Foto: divulgação

A professora também destaca que “a maricultura de algas pode elevar em até 40% os lucros das fazendas marinhas”, além de proporcionar o desenvolvimento das comunidades pesqueiras, a geração de emprego e renda, a facilidade no manejo e na reprodução, o acelerado ciclo de crescimento (em média 45 dias), o atrativo valor de comércio e a garantia de venda interna e externa.

Todos esses fatores positivos fizeram com que a nova espécie tivesse boa receptividade por parte dos maricultores locais. A docente complementa que “eles puderam se envolver e acompanhar o crescimento das algas em áreas já, tradicionalmente, ocupadas pela produção de moluscos. Entre o plantio e a colheita, na época do verão, o tempo de cultivo da macroalga é de apenas um mês, enquanto o de ostra e mexilhão dura oito meses”.

O cultivo 

Segundo reportagem da Revista Panorama da Aquicultura, em 2016, o cultivo da espécie K. alvarezii necessita de algumas condições ambientais favoráveis, “tais como enseadas protegidas de ondulações fortes e profundidade média de 0,50 cm, água quente (acima de 20⁰C), boa luminosidade e salinidade acima de 20 ppm”.

Modelo de cultivo da macroalga. Foto: Acervo Senar/SC

A publicação também destaca que o plantio da macroalga “não exige alta tecnologia e pode ser iniciado com investimento relativamente baixo”. O produtor deve adquirir “por uma única vez apenas um lote de mudas. Daí em diante a propagação é vegetativa permitindo que ele não precise mais comprar novas mudas, sendo apenas necessário manter um estoque para o replantio”.

No Brasil, utiliza-se como modelo padrão a balsa de cultivo, que “é constituída por um conjunto de tubos de PVC com diâmetro de 100 mm e 3 metros de comprimento, vedados em suas extremidades, funcionando como flutuadores conectados entre si através de cabos de polipropileno de 8 mm”. A estrutura “é ancorada em suas extremidades por meio de estacas de ferro enterradas no fundo ou poitas de concreto”. Por fim, o periódico especializado informa que, em média, uma balsa pode produzir sete toneladas de algas frescas a cada 50 dias, podendo chegar a oito toneladas no verão, “dependendo do local de cultivo e outros fatores como densidade de algas/m2, temperatura da água, salinidade, luminosidade e herbivoria”.

Em Santa Catarina, as balsas serão compostas por boias especialmente desenhadas para o cultivo de macroalgas e os ciclos de produção poderão ser menores que 50 dias, dependendo da época do ano, finaliza a pesquisadora.

Rosiani Bion de Almeida/Agecom/UFSC

 

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