LUIZ CARLOS PINHEIRO MACHADO: De cidadão libertário a patrimônio histórico.

03/07/2020 18:36

 

 

 

Tributo ao Tributo ao Professor Luiz Carlos Pinheiro Machado – por  Prof. José Antônio Ribas Ribeiro

Quando fui convidado a ocupar o cargo de diretor do CCA, em fevereiro  de 1979,  o curso de Agronomia estava ainda compondo seu quadro docente.  Lembrei-me de diversas pessoas que com seu talento e seu esforço poderiam ser exemplos a seguir pelos alunos e pelos professores e quiçá poderiam aceitar o desafio de estarem conosco.

Lembrei-me do Professor Luiz Carlos Pinheiro Machado, pois o considerava uma dessas pessoas e na primeira oportunidade o convidei para participar de um concurso, contei do perfil da nossa escola, quem já tínhamos no nosso quadro de docentes e ele não demorou muito para concordar em concorrer a uma vaga de professor.

Ele fora contemporâneo do meu tio Affonso, quando este, à convite do professor  Dulphe Pinheiro Machado, pai do nosso homenageado, foi monitor das disciplinas de zootecnia na antiga faculdade de Agronomia e Veterinária de Porto Alegre. –“ Já aí o Pinheirinho revelava um espírito inquieto e inconformado com as injustiças”, diz meu tio, ainda vivo e lúcido  no alto dos seus 102 anos de idade, pois o menino, ainda no segundo grau, já era uma liderança nata. Comentavam políticos de então que ele  herdara do seu parente ilustre o senador pinheiro Machado esse carisma .

Logo depois de formado fez concurso para sua faculdade de origem e foi aprovado com louvor.

Ministrou aula para esse curso até 1964, quando foi expurgado pelo regime militar por sua militância socialista.

Assim mesmo não se intimidou. Sua vocação de mestre e uma dose de coragem juvenil, o fazia arriscar-se a continuar seu contato com os estudantes. Ministrou diversos cursos intensivos de suinocultura, gado leiteiro e outros de que não tenho lembrança para uma plateia cada vez maior.

Em 1968 ministrou, para nossa turma, um curso intensivo de Gado Leiteiro durante 4 finais de semana com mais de 8 horas aula/dia, com direito a viagem  a sua granja Alegria, a produtores de leite de diversos espectros e à usina de laticínios. Foi quando eu o conheci pessoalmente.

Eu participava da comissão de ensino da nossa Associação de turma, AFA-69, que estava insatisfeita com o rumo que o nosso curso estava tomando, pois era muita aula picada com diversos professores de diferentes didáticas. Mal dava para saber o nome do “lente“.

Percebemos que o ensino da zootecnia poderia ser ministrado de forma muito mais atraente ao aluno cansado de cuspe e giz  se em vez de termos disciplinas várias sendo ministradas em partes e distantes em tempo, pudessem sê-lo sob forma de cursos como o que o professor Pinheiro, na época conhecido como Pinheirinho o fazia.

Nossa turma conquistou o direito de ter aulas concentradas sob esse princípio, a partir daí. Foi uma vitória nossa e da didática do professor Pinheiro. Infelizmente essa modalidade não foi reprisada para os alunos das turmas que se seguiram.

O engo. Agro. Nilo Romero, pecuarista de Bagé,  conhecera os livros de um sábio francês, o médico veterinário e escritor, André Voisin que estava revolucionando o manejo dos pastos. Luiz Carlos, leu um dos livros e partiu para a França para conhecer tal mestre. De lá veio com a idéia de estudar melhor a nova técnica e decidiu testá-la na sua Granja Alegria.

Ficou tão animado com os resultados que pensava em espalhá-la pelo seu Rio Grande, não foi muito compreendido pelos pecuaristas de lá, nessa época, talvez um pouco preocupados com os ideais voltados à reforma agrária que ele não escondia ter.

Visitou seu amigo Nilo diversas vezes em Bagé, preparou material e começou a conversar com outros pecuaristas de outros Estados  e a dar palestras sobre o que chamou de Pastoreio Racional Voisin.

Aproveitou a idéia para crescer mais ainda profissionalmente, como consultor. Reuniu uma equipe de alto nível no seu escritório Geraplan. Em poucos anos tinha projetos espalhados pelo País e também na Argentina, Uruguai e Paraguai.

Concomitantemente era também um líder da sua classe, foi diversas vezes homenageado pelas Associações de Engenheiro Agrônomo, por defender com muita bravura sua classe onde exigia dignidade e respeito e reconhecimento pela sociedade do importante papel que essa profissão desempenhava.

Leitor assíduo das publicações científicas e de muitas ficções que se tornaram realidade, foi um importante baluarte em defesa dos estudantes e principalmente do agricultor.

Batalhou e convenceu técnicos e políticos catarinenses que deveriam mudar de direção nos critérios que usavam para a seleção de porcos.

Provou que era muito mais econômico selecionar os suínos que convertessem melhor o alimento em carne e que tivessem carne magra na carcaça para agregar mais valor ao produto carne e subprodutos, já bastante conhecidos na agricultura familiar.

Foi um dos jurados na primeira exposição de suínos de Santa Catarina sendo um dos maiores responsáveis pelo treinamento dos jovens agrônomos contratados pelo serviço de extensão para dar apoio às cooperativas e agroindústrias do Estado, conforme depoimento de Glauco Olinger, então secretário executivo da ACARESC.

Escreveu e deu muitos conselhos a seus estudantes sobre o poder das indústrias de insumos agrícolas  sobre os agricultores. Mostrou que muitas delas aprisionam o homem do campo por oferecerem materiais e produtos mais eficientes e que tornam as lavouras  mais produtivas mas também mais dependentes de agrotóxicos, adubos e corretivos, caros e danosos a saúde de quem aplica e do consumidor final.

Incentivou a agricultura sem venenos e trouxe muita tecnologia pouco difundida por aqui, a Agroecologia, por confrontar interesses da Indústria de insumos   de países desenvolvidos.

Apostou na importância da Etologia aplicada à zootecnia, sendo o criador e primeiro professor do assunto no Sul do Brasil, aqui na UFSC.

Quando presidente da EMBRAPA garantiu recursos para a vinda de pesquisadores internacionais para estimularem o desenvolvimento dessa matéria na UFSC e no País.

Reconheceu a relevância do resgate de animais e plantas em risco de extinção e deu enorme apoio a EMBRAPA-CENARGEN em Brasília e apoiou diretamente os esforços para  que o Gado Crioulo Lageano fosse estudado e protegido.

Deu grandes contribuições ao curso de pós-graduação em Agroecossistemas seja ao ministrar segmentos de disciplinas, seja como orientador ou como professor voluntário.

No Departamento de Zootecnia, era responsável pela disciplina de Etologia aplicada à zootecnia e lecionava a cadeira de `Bovinocultura para o curso de Agronomia, quando esta tinha seis horas aula semanais. Nessa disciplina estimulava os estudantes a realizarem trabalhos durante as disciplinas que fossem mais próximos da realidade e mais rigorosos não só no conteúdo mas na forma, de modo a não terem surpresas desagradáveis depois de formados.

Foi diversas vezes homenageado, nas formaturas do curso de Agronomia pela sua empatia com os acadêmicos como pela sua sabedoria e maneira clara de expor assuntos complexos, como por trazer novidades da ciência não apenas ligadas ao programa da disciplina como ao contexto da profissão e à cidadania.

Aposentado aos 70 anos pela compulsória, não se perturbou e continuou lecionando, participando de projetos de pesquisa e de extensão, como se da ativa fosse.

Participou ativamente dos trabalhos de extensão junto a agricultores organizados em condomínio, no projeto “ Produção coletiva e intensiva de leite a pasto” e  depois em projetos do  Movimento dos Trabalhadores sem Terra, ministrando cursos e prestando consultoria.

Idealista, Ativo até os últimos dias de sua existência, nunca pensou em pendurar as chuteiras, pelo que eu soube, antes da quarentena, estava dando os últimos retoques num livro que publicaria com seu filho.

Enfim, sua partida nos empobrece, embora nos deixe um  grande legado, e uma enorme responsabilidade para preservá-lo e propagá-lo.

Vá em paz caro Mestre, com a consciência do dever cumprido e com a gratidão dos seus milhares de alunos e amigos.

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