UFSC tem papel importante na obtenção da Indicação Geográfica do mel de melato de bracatinga

30/07/2021 14:50

A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) teve um papel relevante na obtenção do registro definitivo de Indicação Geográfica (IG) para o mel de melato de bracatinga produzido na região do Planalto Sul Brasileiro. O Grupo de Pesquisa em Antioxidantes Naturais coordenado pela professora Ana Carolina de Oliveira Costa, do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos, realizou mais de 1.500 análises para a determinação de marcadores químicos, ou seja, compostos que pudessem diferenciar o mel de melato da bracatinga dos méis florais produzidos na mesma região. As análises foram realizadas no Laboratório de Química de Alimentos do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos, localizado no Centro de Ciências Agrárias (CCA).

A indicação geográfica do mel de melato da bracatinga do Planalto Sul Brasileiro, na categoria de Denominação de Origem, foi concedida pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) no dia 20 de julho. Com o registro, somente este território que abrange áreas de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná poderá denominar no mercado este produto como mel de melato da bracatinga do Planalto Sul brasileiro, protegendo o produto e garantindo mercado exclusivo para os apicultores desta região. A Denominação de Origem considera as características geográficas (naturais e humanas) da região e determina a singularidade e qualidade de um determinado produto.

A Universidade envolveu-se no processo de registro devido ao seu pioneirismo nos estudos direcionados ao mel de melato de bracatinga de Santa Catarina. “Estudamos o mel de melato de bracatinga desde 2014, sendo que todos os estudos que tratam da caracterização de compostos químicos e propriedades bioativas do mel de melato de bracatinga de Santa Catarina foram publicados pelo Grupo de Pesquisa em Antioxidantes Naturais”, diz a professora Ana Carolina de Oliveira Costa, coordenadora do grupo. 

Por meio da pesquisa de vários mestrados e doutorados, o grupo descobriu diversas características do mel de melato de bracatinga que o diferenciam dos méis florais e dos méis de abelhas sem ferrão. “Ao longo do tempo, nossos estudos evidenciaram as características únicas do mel de melato de bracatinga e propriedades muitas vezes superiores quando comparados aos méis florais, com o apoio dos apicultores e de órgãos ligados ao setor”, diz a pesquisadora.

Efeitos benéficos

O pedido de registro de Indicação Geográfica partiu da Federação das Associações de Apicultores de Santa Catarina (Faasc), em parceria com as federações de apicultores do Rio Grande do Sul (Fargs) e do Paraná (Fepa). O processo teve grande participação da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) e parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Mel de melato de bracatinga é mais escuro que o mel floral

As análises conduzidas pelo grupo de pesquisa da UFSC determinaram que o mel de melato de bracatinga apresenta maiores quantidades de oligossacarídeos, substâncias que atuam como fibras no nosso organismo; minerais, nutrientes essenciais para o equilíbrio metabólico; além de menores quantidades de glicose e frutose, quando comparados aos méis florais.

“Os efeitos benéficos atribuídos ao mel de melato da bracatinga do Planalto Sul do Brasil incluem especialmente ação anti-inflamatória e antioxidante, avaliados por meio de estudos in vitro. Essas propriedades estão fortemente vinculadas à presença de compostos bioativos neste mel, tais como substâncias fenólicas, minerais, aminoácidos, entre outros”.

“Vale destacar que estudos pioneiros com mel de melato de bracatinga na região demarcada demonstraram que este possui ainda características diferenciadas quando comparado aos méis florais e de melato de outras regiões geográficas e/ou botânicas, com destaque para maior concentração dos aminoácidos livres serina, prolina, asparagina, ácido aspártico e ácido glutâmico; mineral potássio, bem como compostos fenólicos, com ênfase para os ácidos benzoico, salicílico, 3,4-dihidroxibenzoico, p-cumárico, além de luteolina e rutina”, afirma a professora Ana Carolina no texto preparado para divulgação da obtenção de registro da Indicação Geográfica.

Matéria-prima

O mel de melato é um produto natural das abelhas, porém não provém do néctar das flores, mas a partir das excreções de insetos sugadores de partes vivas das plantas. A bracatinga (Mimosa scabrella Bentham) é uma espécie arbórea nativa do Brasil com presença predominante na região Sul. Os bracatingais são infestados por cochonilhas (Tachardiella sp. ou Stigmacoccus paranaensis Foldi) que se fixam no tronco das árvores e se alimentam da seiva elaborada, excretando um líquido adocicado rico em carboidratos. Este líquido fica depositado nas partes externas da planta, é utilizado como matéria-prima pelas abelhas da espécie Apis mellifera e, a partir dessa associação, é elaborado o mel de melato de bracatinga.

A produção do mel de melato da bracatinga no Sul do Brasil se dá comumente entre os meses de dezembro a junho, o que corresponde aos períodos de maior escassez de néctar e pólen. Entretanto, ocorre predominantemente a cada dois anos (anos pares), geralmente no primeiro semestre. Nos anos ímpares ela ocorre em menor quantidade, o que, contudo, às vezes permite produção de pequenas quantidades de mel de melato.

A Indicação Geográfica do mel de melato da bracatinga abrange uma região de 134 municípios, sendo 107 no estado de Santa Catarina, 15 do Rio Grande do Sul e 12 do Paraná. Segundo a Federação das Associações de Apicultores de Santa Catarina (Faasc), são 1.350 apicultores (1.108 em SC, 66 no PR, e 26 no RS), com aproximadamente 120.000 colmeias rastreadas, cadastradas, que produzem aproximadamente 500 toneladas do mel de melato de bracatinga por safra, que ocorre a cada dois anos. Em 2017, o mel de melato da bracatinga catarinense foi reconhecido como o melhor do mundo no 45° Congresso Internacional de Apicultura, em Istambul, na Turquia.

 

João Mesquita, estagiário, e Luís Carlos Ferrari

Fonte: Site UFSC em 27/07/2021 14:25

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